jeudi 2 avril 2020

3- UM MOMENTO DE CORAGEM

Na minha infância eu era uma criança destemida, uma menina bastante corajosa, não tinha medo de muita coisa, a não ser de apanhar. Apanhei muito, mas isso é outro assunto. Lembro-me de algumas passagens em que fui bastante corajosa, mas prefiro citar o dia em que caí na porta de casa e quebrei dois dedos da mão esquerda.

Penso que, até aquela época, nunca havia sentido uma dor tão grande. Quebrar ossos já não é fácil, mas quando são ossos pequenos, como os das mãos, é pior ainda. A dor dói no fundo da alma, enquanto a gente não toma um analgésico forte na veia ela continua ali, acabando com você. Sua visão fica turva de tanta dor, mesmo não querendo você acaba chorando porque é algo lancinante. Parecia que um trator havia passado por cima dos meus dedos. Bem, foi quase isso. Eu caí com tudo em cima deles. Não tinha outro desfecho possível.

Fui para o hospital, fiquei internada para a cirurgia de redução das fraturas, só voltei no dia seguinte com uma luva de gesso que incomodava demais, mais por saber que teria que ficar um mês com ela do que propriamente pelo incômodo que ela causava.

No momento em que caí, tive a certeza de que havia quebrado os dedos, e que num deles havia uma fratura exposta. Sabia que precisaria ser operada, sabia que passaria aquela noite no hospital. Eu vi tudo isso na minha frente naquela hora. E era muito estranho, porque enquanto eu urrava de dor, eu conseguia ao mesmo tempo pensar em tudo o que não aconteceu: não aconteceu com outra pessoa, não aconteceu com a minha mãe, não foi a minha mão direita, a dominante, porque senão eu estaria lascada - eu estava na fase de provas do Cours Nancy, da Alliance Française. Eu tinha que escrever textos e mais textos. Como eu ficaria se tivesse sido a direita? Tudo isso foi passando na minha cabeça ao mesmo tempo em que chorava, berrava, quase desmaiando de dor.

Vejo que fui corajosa ao enfrentar aquela situação. Depois da cirurgia foi um grande alívio, e a certeza de que aquele tombo serviu para me mostrar que ninguém está imune a quedas, mas também ninguém fica para sempre no chão.