Na minha infância eu era uma criança destemida, uma menina bastante corajosa, não tinha medo de muita coisa, a não ser de apanhar. Apanhei muito, mas isso é outro assunto. Lembro-me de algumas passagens em que fui bastante corajosa, mas prefiro citar o dia em que caí na porta de casa e quebrei dois dedos da mão esquerda.
Penso que, até aquela época, nunca havia sentido uma dor tão grande. Quebrar ossos já não é fácil, mas quando são ossos pequenos, como os das mãos, é pior ainda. A dor dói no fundo da alma, enquanto a gente não toma um analgésico forte na veia ela continua ali, acabando com você. Sua visão fica turva de tanta dor, mesmo não querendo você acaba chorando porque é algo lancinante. Parecia que um trator havia passado por cima dos meus dedos. Bem, foi quase isso. Eu caí com tudo em cima deles. Não tinha outro desfecho possível.
Fui para o hospital, fiquei internada para a cirurgia de redução das fraturas, só voltei no dia seguinte com uma luva de gesso que incomodava demais, mais por saber que teria que ficar um mês com ela do que propriamente pelo incômodo que ela causava.
No momento em que caí, tive a certeza de que havia quebrado os dedos, e que num deles havia uma fratura exposta. Sabia que precisaria ser operada, sabia que passaria aquela noite no hospital. Eu vi tudo isso na minha frente naquela hora. E era muito estranho, porque enquanto eu urrava de dor, eu conseguia ao mesmo tempo pensar em tudo o que não aconteceu: não aconteceu com outra pessoa, não aconteceu com a minha mãe, não foi a minha mão direita, a dominante, porque senão eu estaria lascada - eu estava na fase de provas do Cours Nancy, da Alliance Française. Eu tinha que escrever textos e mais textos. Como eu ficaria se tivesse sido a direita? Tudo isso foi passando na minha cabeça ao mesmo tempo em que chorava, berrava, quase desmaiando de dor.
Vejo que fui corajosa ao enfrentar aquela situação. Depois da cirurgia foi um grande alívio, e a certeza de que aquele tombo serviu para me mostrar que ninguém está imune a quedas, mas também ninguém fica para sempre no chão.
jeudi 2 avril 2020
mardi 31 mars 2020
2- UM LUGAR QUERIDO
Na minha vida tenho inúmeros lugares queridos. Desde pequena eu sempre observei muito os lugares aonde ia, e de certa forma me apegava a eles, como por exemplo as casas de tios, de primos, a primeira escola, a praia que a gente frequentava, o apartamento onde morava. Poderia citar qualquer um deles, mas não gosto do óbvio. E também não pegarei nenhuma referência da infância. Na vida adulta tive muitos outros lugares que me marcaram e nunca saíram do meu coração.
Eu sempre adorei artes, todas elas. E quando inauguraram o CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil) passei a frequentá-lo rotineiramente. Ia ver as exposições, ficava na biblioteca quando precisava estudar, ia ver algum filme ou alguma peça. Ou simplesmente ficava no foyer, sentada nos degraus, olhando a abóbada de vidro ou tomando um café. Tudo lá sempre me encantou, cada detalhe, cada cantinho. Sempre que lançavam uma exposição lá eu procurava ir. E vi muitas! Uma que me marcou bastante foi a do acervo de Yves Saint-Laurent, o grande estilista. Cada vestido idealizado por ele era uma verdadeira obra de arte! Vi a exposição das obras do Ziraldo, de Piet Mondrian, de Jean-Michel Basquiat, coletâneas de arte moderna e tantas e tantas outras.
O CCBB é um lugar querido porque sempre que saio de lá eu me sinto alimentada, fortalecida, evoluída, porque as artes, a cultura são alimentos para a alma e o espírito, essenciais para que a gente possa se entender melhor como ser humano habitante deste mundo, desta sociedade. A gente consegue enxergar melhor a vida através da cultura e das artes, que nos levam a questionar nossa existência, nossa atuação nos nossos meios, nossa visão de mundo, nosso olhar sobre nós mesmos.
Comecei a frequentar esse espaço logo depois de sua inauguração, em 12 de outubro de 1989, quando eu ainda tinha dezoito anos, ainda uma adolescente para os padrões atuais. Ali aprendi, observei, namorei, entendi, fiquei intrigada, pensei, me encantei. E tudo isso eu pretendo continuar fazendo ali a cada visita, começando e terminando sempre com um bom café no bistrô, claro.
GPP
Eu sempre adorei artes, todas elas. E quando inauguraram o CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil) passei a frequentá-lo rotineiramente. Ia ver as exposições, ficava na biblioteca quando precisava estudar, ia ver algum filme ou alguma peça. Ou simplesmente ficava no foyer, sentada nos degraus, olhando a abóbada de vidro ou tomando um café. Tudo lá sempre me encantou, cada detalhe, cada cantinho. Sempre que lançavam uma exposição lá eu procurava ir. E vi muitas! Uma que me marcou bastante foi a do acervo de Yves Saint-Laurent, o grande estilista. Cada vestido idealizado por ele era uma verdadeira obra de arte! Vi a exposição das obras do Ziraldo, de Piet Mondrian, de Jean-Michel Basquiat, coletâneas de arte moderna e tantas e tantas outras.
O CCBB é um lugar querido porque sempre que saio de lá eu me sinto alimentada, fortalecida, evoluída, porque as artes, a cultura são alimentos para a alma e o espírito, essenciais para que a gente possa se entender melhor como ser humano habitante deste mundo, desta sociedade. A gente consegue enxergar melhor a vida através da cultura e das artes, que nos levam a questionar nossa existência, nossa atuação nos nossos meios, nossa visão de mundo, nosso olhar sobre nós mesmos.
Comecei a frequentar esse espaço logo depois de sua inauguração, em 12 de outubro de 1989, quando eu ainda tinha dezoito anos, ainda uma adolescente para os padrões atuais. Ali aprendi, observei, namorei, entendi, fiquei intrigada, pensei, me encantei. E tudo isso eu pretendo continuar fazendo ali a cada visita, começando e terminando sempre com um bom café no bistrô, claro.
GPP
lundi 30 mars 2020
1- UMA MEMÓRIA FELIZ
Contar uma só memória feliz é bastante complicado. Embora as tristes sejam mais marcantes, e às vezes mais abundantes, sempre há uma ou outra que se possa considerar. Poderia citar fatos da minha infância - minha memória sempre foi excelente para fatos e datas -, mas seria óbvio demais. Minha infância foi bastante divertida, tranquila, embora eu fosse praticamente uma "demônia". Eu era uma criança extrovertida, bagunceira, criativa, às vezes um pouco agressiva, talvez por conta do excesso de vida que havia dentro de mim, e muitas vezes eu não podia jogar essa vida toda para fora, em brincadeiras e atividades que eu adorava, como cantar, dançar, jogar bola, rodar bamboê, andar de patins.
Eu fui uma criança feliz, com uma família muito bacana, unida, muitos tios e tias, primos e primas, avós, pais e irmão que, coitado, sofria nas minhas mãos.
Seria muito óbvio citar uma memória feliz daquela época. Minha adolescência também foi bastante boa, embora tenha sido uma época mais complicada, não só pelas descobertas, mas porque eu me tornei uma criatura muito carente. Nada de surpreendente nesse período da vida. Mas também tive momentos muito felizes, menos que na infância, mas tive, principalmente as festas. Que eram bem diferentes do conceito de festa atualmente.
Fico então com uma memória feliz da minha vida adulta. Poderia citar algumas, mas nenhuma é tão feliz quanto o nascimento da minha irmã "raspa do tacho". Eu tinha vinte e sete anos, segundo meu pai eu estava na idade de dar a ele um neto, e não ele de me dar uma irmã. Esquece. O que ele fala há muito tempo eu deixei de escrever. Até hoje eu não sei descrever como foi a sensação de, àquela altura da vida, pegar no colo uma criatura com os pés iguais aos meus, com características minhas, mas que não era minha filha. No começo era tudo muito estranho, mas enquanto ela era um bebê eu procurava não pensar muito nessa estranheza, eu apenas curtia muito quando ela estava comigo. Com o passar do tempo, à medida que ela foi crescendo, foi ficando mais complicado, mais estranho. Ela passou a ficar dias na minha casa, e eu ficava num dilema: cuidar dela, ajudar a educar quando ela estivesse sob minha responsabilidade, mas lembrando que eu não era a mãe dela. Eu procurava sempre lembrar de que eu era irmã, e que precisava me comportar como tal. Era difícil equilibrar esses dois papeis, ser responsável sem esquecer de ser irmã. Fora que ouvimos muito a pergunta: "Ela é sua filha?" Às vezes era na afirmativa mesmo: "Que linda a sua filha!" Era constrangedor, mas com o passar do tempo nos acostumamos com a indiscrição alheia.
Hoje ela é adulta, as diferenças são muito menores. Não tenho mais aquela responsabilidade por ela, posso ser só irmã, e isso é muito bom. Às vezes aconselho sobre algum assunto, mas ela segue se quiser, eu não fico mais preocupada como antes porque sei que, no fim das contas, ela sempre acaba se virando e resolvendo os próprios pepinos. Hoje em dia falamos besteira, rimos, trocamos confidências, fazemos chamadas por vídeo - o que para mim é estranhíssimo, mas estou me adaptando - e, principalmente, somos de esquerda. Isso não tem preço!
GPP
Eu fui uma criança feliz, com uma família muito bacana, unida, muitos tios e tias, primos e primas, avós, pais e irmão que, coitado, sofria nas minhas mãos.
Seria muito óbvio citar uma memória feliz daquela época. Minha adolescência também foi bastante boa, embora tenha sido uma época mais complicada, não só pelas descobertas, mas porque eu me tornei uma criatura muito carente. Nada de surpreendente nesse período da vida. Mas também tive momentos muito felizes, menos que na infância, mas tive, principalmente as festas. Que eram bem diferentes do conceito de festa atualmente.
Fico então com uma memória feliz da minha vida adulta. Poderia citar algumas, mas nenhuma é tão feliz quanto o nascimento da minha irmã "raspa do tacho". Eu tinha vinte e sete anos, segundo meu pai eu estava na idade de dar a ele um neto, e não ele de me dar uma irmã. Esquece. O que ele fala há muito tempo eu deixei de escrever. Até hoje eu não sei descrever como foi a sensação de, àquela altura da vida, pegar no colo uma criatura com os pés iguais aos meus, com características minhas, mas que não era minha filha. No começo era tudo muito estranho, mas enquanto ela era um bebê eu procurava não pensar muito nessa estranheza, eu apenas curtia muito quando ela estava comigo. Com o passar do tempo, à medida que ela foi crescendo, foi ficando mais complicado, mais estranho. Ela passou a ficar dias na minha casa, e eu ficava num dilema: cuidar dela, ajudar a educar quando ela estivesse sob minha responsabilidade, mas lembrando que eu não era a mãe dela. Eu procurava sempre lembrar de que eu era irmã, e que precisava me comportar como tal. Era difícil equilibrar esses dois papeis, ser responsável sem esquecer de ser irmã. Fora que ouvimos muito a pergunta: "Ela é sua filha?" Às vezes era na afirmativa mesmo: "Que linda a sua filha!" Era constrangedor, mas com o passar do tempo nos acostumamos com a indiscrição alheia.
Hoje ela é adulta, as diferenças são muito menores. Não tenho mais aquela responsabilidade por ela, posso ser só irmã, e isso é muito bom. Às vezes aconselho sobre algum assunto, mas ela segue se quiser, eu não fico mais preocupada como antes porque sei que, no fim das contas, ela sempre acaba se virando e resolvendo os próprios pepinos. Hoje em dia falamos besteira, rimos, trocamos confidências, fazemos chamadas por vídeo - o que para mim é estranhíssimo, mas estou me adaptando - e, principalmente, somos de esquerda. Isso não tem preço!
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